Viagens


Guiana

Georgetown: o (quase) tedioso turismo na capital da Guiana

2015-11-05

Como falei no último post sobre o país, visitar a Guiana implica em fazer um turismo que pende mais às aventuras na selva amazônica do que uma experiência urbana, em que é possível desvendar cidades, museus e a herança histórica. Georgetown, a capital, é uma cidade tranquila, de pouco mais de 200 mil habitantes que, embora já dominada por ingleses, franceses e holandeses, perdeu quase todo patrimônio histórico e arquitetônico erguidos em suas ruas. Na época de sua colonização, os prédios públicos eram feitos essencialmente de madeira local que sucumbiram facilmente às ações do tempo, à má preservação e aos grandes incêndios de 1945 e 1951.

Raros e sobreviventes do tempo e do descaso, raros edifícios de madeira dão o ar da graça em Georgetown.
Raros e sobreviventes do tempo e do descaso, raros edifícios de madeira dão o ar da graça em Georgetown.
A St George Cathedral é um dos cartões postais mais famosos de Georgetown, presente em notas do dólar guianense e o edifício de madeira mais alto do mundo.
A St George Cathedral é um dos cartões postais mais famosos de Georgetown, presente em notas do dólar guianense e o edifício de madeira mais alto do mundo.

O que sobrou do período colonial foram poucos – a ainda degradados – prédios em madeira, além de algumas construções em alvenaria. Pelas ruas, não é difícil ter que se desviar de calhas por onde escorre o esgoto da cidade, como é comum ruas de terra ou de asfaltos completamente esburacadas. A situação da infra-estrutura não é dramática, mas é bem ruim. Este maravilhoso youtuber – sim, esta é a única definição que pode ser dada a ele – fez o maravilhoso serviço de filmar as ruas de Georgetown por mais de uma hora, ao som de vários calypsos. Um excelente serviço – embora de baixa qualidade – aos interessados em visitar o país.

 

Um dos edifícios mais notáveis que sobreviveu a todos os problemas de uma nação que se tornou independente apenas em 1966 foi a St. George Cathedral, uma igreja de arquitetura vitoriana que é considerada a mais alto do mundo feita em madeira. Próxima dela, a igreja presbiteriana de St. Andrews Kirk é o edifício preservado mais antigo do país e a primeira igreja europeia a aceitar escravos como fiéis. Deixando agora o turismo religioso de lado – até porque se este fosse o objetivo eu iria era pra Terra Santa – a capital guianense conta com alguns parques, apenas um museu – cujo acervo e espaço são bem pobrinhos – e alguns mercados.

A estátua da Rainha Vitória ainda padece em Georgetown, colônia inglesa até 1966.
A estátua da Rainha Vitória ainda padece em Georgetown, colônia inglesa até 1966.
A St. Andrews Kirk, protestante, no centro da cidade, foi a primeira igreja europeia a aceitar escravos como fiéis.
A St. Andrews Kirk, protestante, no centro da cidade, foi a primeira igreja de origem europeia a aceitar escravos como fiéis.

O principal deles é o Stabroek Market, nome dado à capital na época de domínio holandês. É lá que a fofoca e o tititi de mercado rolam soltos. Trata-se de um verdadeiro ponto de encontro diurno dos guianenses, talvez o principal deles. É onde se vende boa parte dos jornais locais, de onde saem os ônibus – que, no caso, são vans que levam de um lugar a outro. É mesmo muita gente junta. Por lá, centenas de lojas vendem frutas, peixes, ervas, carnes, temperos e outras utilidades, como utensílios domésticos e produtos para casa. Ao fundo, barcos descarregam mercadorias pelo rio Demerara. Não pense que na Guiana (ou mesmo no Suriname) mercado é sinônimo de souvenir ou artesanato. Por lá, o turismo ainda não chegou e qualquer conglomerado comercial é meramente funcional. Se você, assim como eu, gosta de levar coisas típicas pra casa, o tesouro – pero no mucho – está na rua atrás dos Correios e relativamente próxima ao Stabroek. Por lá, umas 10 barraquinhas vai dar o que você precisa.

No Stabroek Market, é hora dos guianenses botarem o papo em dia.
No Stabroek Market, é hora dos guianenses botarem o papo em dia.
Mercado popular vende de fruta a vassoura. Mas nada de souvenirs para viajantes.
Mercado popular vende de fruta a vassoura. Mas nada de souvenirs para viajantes.

Georgetown é uma cidade relativamente barata para os padrões brasileiros, com exceção da rede hoteleira. Esta deverá ser a principal preocupação na hora de planejar uma viagem. Restaurantes simples, quase escondidos – e muito bons, com preço honesto – vendem a autêntica comida criolla, cuja nossa definição mais próxima seria um bom e servido mexidão. À noite, bares, rum e vários karaokês embalam a felicidade guianense.

Vista do Stabroek Market: nome foi dado quando a capital tinha este nome, na época de domínio holandês.
Vista do Stabroek Market: nome foi dado quando a capital tinha este nome, na época de domínio holandês.
Ao fundo do mercado, o Rio Demerara, muito importante para a economia do país.
Ao fundo do mercado, o Rio Demerara, muito importante para a economia do país.

Em uma cidade cujos pontos turísticos não são relevantes – ainda mais em um país onde o turismo urbano é menos relevante ainda – o que resta na cidade é se entregar ao doce marasmo da vida tranquila e visitar, sem pressa, tudo, tudo mesmo o que se tem direito. E esses passeios incluem o local de nascimento de um presidente que você nem faz a menor ideia quem seja (e longas explicações de um guia sobre a vida e obra do dito cujo), passando por um jardim botânico que parece mais um grande gramado, uma premiada estátua de gosto duvidoso e até um farol bicolor que está há décadas fechado para visitação. Mas aí você mesmo assim vai até lá pensando: “vai que hoje tá aberto?”, não com o real sentimento de esperança, mas só mesmo pra passar o tempo e conhecer um pouco mais da cidade.

Segundo a placa, esta estátua foi eleita a mais bonita de todo o Caribe em algum ano que não me lembro mais. Gosto não se discute.
Segundo a placa, esta estátua foi eleita a mais bonita de todo o Caribe em algum ano que não me lembro mais. Gosto não se discute.
O Jardim Botânico de Georgetown, que não passa de um grande gramado com palmeiras.
O Jardim Botânico de Georgetown, que não passa de um grande gramado com palmeiras.
Que é quase idêntico ao Promenade Gardens, no centro da cidade. O negócio é sentir a tranquilidade e deixar a vida passar.
Que é quase idêntico ao Promenade Gardens, no centro da cidade. O negócio é sentir a tranquilidade e deixar a vida passar.

Visitar uma cidade pouco (e para alguns nada) turística é passar por uma reformulação do próprio sentido de uma viagem. Até porque perambular sem rumo, ficar horas conversando com vendedores no mercado ou passar uma eternidade numa praça olhando o movimento não deixa de ser uma forma de conhecer a realidade banal do outro. Viajar sem se preocupar com atividades turísticas tem sim seu lado bom. E Georgetown me ensinou que qualquer boa viagem pode ser simples.

Vista aérea de Georgetown: à esquerda, o Stabroek Market. No fundo à esquerda, a St. George Cathedral.
Vista aérea de Georgetown: à esquerda, o Stabroek Market. No fundo à esquerda, a St. George Cathedral.

Comentários


facebook instagram vimeo youtube pinterest