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Os misteriosos totens do Canadá

2015-09-01

Ao avistar as primeiras esculturas de madeira em cabanas, estradas ou entradas de tribos indígenas, os europeus do século 18 pensaram que os totens representavam deuses, diabos, proteções e maldições religiosas das tribos do noroeste canadense. Ledo engano. Ao contrário do que muita gente pensa até hoje, as famosas esculturas esculpidas uma em cima da outra serviam para tornar público algum fato, lenda, passagem ou fofoca em substituição à escrita inexistente. A presença de animais, por exemplo, geralmente serviu para relatar crenças populares dos povos nativos, como a capacidade de alguns antepassados de se transformarem em aves. As histórias eram sagradas. Os totens que contavam e recontavam sua história nem tanto.

 

Utilizados pelos índios do noroeste do Canadá, os totens hoje são símbolos do país.
Utilizados pelos índios do noroeste do Canadá, os totens hoje são símbolos do país.
A representação do pássaro-trovão significava poder e liderança.
A representação do pássaro-trovão significava poder e liderança.

Esculturas também se erguiam para anunciar a chegada ou a morte de alguém, eventos notáveis, clãs familiares e até mesmo para ridicularizar uma pessoa publicamente. Se hoje muros pixados em frente às casas no meio urbano podem entregar a traição de um cônjuge ou mesmo escancarar a orientação sexual de um rebento, alguns indígenas faziam fofoca na calada da noite, esculpindo um totem e floreando imagens e significados sobre a vida íntima de algum membro da tribo. Quanto maior, mais colorido e detalhado, mais importante era a notícia ou história a ser contada ou mais bafão era o veneno a ser destilado.

 

Tanto as imagens (que podiam ser de animais, pessoas ou plantas) quanto as cores utilizadas estão cheios de significados misteriosos.
Tanto as imagens (que podiam ser de animais, pessoas ou plantas) quanto as cores utilizadas estão cheios de significados misteriosos. A águia representa coragem e prestígio.
Qualquer semelhança com nossa carranca é mera coincidência.
Qualquer semelhança com nossa carranca é mera coincidência.

Seu nome significava “marca da família” na língua dos índios da América do Norte e, apesar da variedade de significados entre tribos, uma coisa era comum entre os totens: a sua importância na demarcação de povos, escolha dos símbolos que representavam cada um deles e a aura de medo e proteção que causavam nos moradores e habitantes de cada aldeia. No oeste canadense, nas imediações da cidade de Vancouver, tribos indígenas que também viviam no Alasca esculpiam totens com estes significados (e que se tornaram os mais famosos do mundo), embora existam registros deste tipo de artefato desde a pré-história. Na Nova Zelândia, milhas e milhas longe dos nativos americanos, os maoris faziam esculturas semelhantes. No Brasil, o mais próximo da figura de um totem foram as populares e medonhas carrancas, esculturas verticais em forma humana ou animal que eram utilizadas em embarcações do rio São Francisco. Não se sabe se a origem é africana ou ameríndia.

 

Detalhe de um totem no Stanley Park, em Vancouver. Suas representações enfileiradas serviam para contar uma lenda ou história real.
Detalhe de um totem no Stanley Park, em Vancouver. Suas representações enfileiradas serviam para contar uma lenda ou história real.
Apesar de terem ficado famosos no Canadá, há registros da construção de totens por indígenas da Nova Zelândia e Ásia.
Apesar de terem ficado famosos no Canadá, há registros da construção de totens por indígenas da Nova Zelândia e Ásia.

No caso dos canadenses, as histórias e lendas presentes em cada toco de madeira fizeram história e se popularizaram como itens “exóticos” durante a colonização. Até hoje, descendentes dos indígenas produzem totens para colecionadores. Mas a sua interpretação total não é tarefa tão simples. A abstração e subjetividade das imagens dependiam das intenções do artista e poderiam conter diversas interpretações, inclusive equivocadas. Hoje, alguns totens do século XIX estão em exibição em museus canadenses e europeus. Obras mais antigas que estas (conta-se que a produção de totens data de mais de 3 mil anos), embora tivessem existido, não sobreviveram para contar história. Por mais que a madeira fosse boa, elas se perderam no tempo, expostas em entradas de tribos e cabanas (e, claro, sujeitas às ações do tempo e da natureza).

 

Os totens que sobreviveram para contar história são do século XIX. Mas registros apontam sua existência há 3 mil anos.
Os totens que sobreviveram para contar história são do século XIX. Mas registros apontam sua existência há 3 mil anos.
Totem no Stanley Park, em Vancouver.
Totem no Stanley Park, em Vancouver.

Em Vancouver, é possível ver algumas representações em museus que recontam a história do país pré-colonização. Mas, como na concepção original, o interessante é mesmo ver os objetos ao ar livre, da mesma forma que eram observados pelos indígenas. No Brockton Point, no Stanley Park (uma área verde enorme em Vancouver), nove totens no início dos anos 20 e também do século XIX estão dispostos para visitantes. E um brinde pra quem adivinhar, sozinho, a história de cada um deles.

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