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Bósnia e Herzegovina

“Tunnel of Hope”: A única saída durante o Cerco de Sarajevo

2015-09-04

Imagine viver 1425 dias sangrentos, em uma cidade completamente sitiada, com cerca de 13.000 atiradores snipers infiltrados por todos os lados. Era mais ou menos assim a nada mole vida daqueles que ainda habitavam a capital da Bósnia, durante o cerco imposto pelas tropas sérvias, que ficou conhecido como Cerco de Sarajevo. Logo que cheguei na cidade e percebi que Sarajevo era uma espécie de ninho no meio das montanhas, ficou fácil entender como os snipers realmente cercaram a cidade: do alto das montanhas era possível ter uma vista de camarote do trânsito e de possíveis alvos, o que facilitava e muito a emboscada. Ainda mais sórdido era o “Snipers Alley”, um fogo cruzado imposto em um dos bulevares mais concorridos da cidade, transformando a vida em Sarajevo em um “salve-se quem puder”. Alguns se safavam, outros tantos tiveram um destino mais cruel, alimentando a estatística dos quase 14 mil mortos durante o cerco.

Talvez com uma imagem fique melhor de ilustrar o que estou dizendo:

Cerco De SARAJEVO
Mapa ilustrado de Sarajevo durante o cerco, criado pela organização FAMA., mídia independente que documentou toda a queda da Iugoslávia.

Na época, a única parte da cidade controlada pelas tropas dos Bosniaks era o subúrbio de Butmir, que também era a insólita válvula de escape para aqueles que tentavam sair de Sarajevo. O que passa é que entre Butmir e Sarajevo estava a estrada para o aeroporto, que no papel era para ser uma região neutra sob controle das Nações Unidas, mas não funcionava muito bem assim: atravessar esse fogo cruzado seria uma atitude kamikaze. Quando na guerra, o ser-humano parece desenvolver toda sua miríade cerebral com o intuito de sobreviver. Para resistir nesse embuste que era Sarajevo e continuar recebendo alimentos, combustível e, claro, armamentos, as tropas Bosniaks com a ajuda voluntária da população muçulmana cavaram um túnel de 800 metros na chamada “zona neutra”, que ficou conhecido como “Tunnel of Hope”.

 

Cerco de Sarajevo
Entrada do túnel, construído nos porões da casa da família Kolar, que habitava o local na época do cerco de Sarajevo. Detalhe para a fachada e as inúmeras marcas de balas.
Cerco de Sarajevo
O risco de eletrocução era eminente: de um lado, o túnel possuía uma engenhosa gambiarra de eletricidade corrente.
Cerco de Sarajevo
Parte dos insumos que compunham o kit de ajuda humanitária das Nações Unidas são expostos no museu.

Cerco de Sarajevo

Somente 20 metros do túnel ainda resistem– o restante já desmoronou. Hoje, o túnel configura-se como uma das maiores atrações turísticas de Sarajevo e abriga um modesto museu com relíquias de um passado nem tão distante assim. Pra chegar até lá, qualquer agência turística da cidade possui um “day tour” por cerca de 20 euros, porém achei mais interessante encarar duas conduções e ir por conta própria do que ter um guia tendencioso me ciceroneando.

 

Cerco de Sarajevo
Os 20 metros restantes do túnel são uma amostra-grátis claustrofóbica do que era a única saída da cidade. Obviamente, hoje o túnel está no ápice da limpeza, mas na época, um lamaçal intenso fazia parte da paisagem subterrânea.

Caminhar pelo claustrofóbico túnel de 1,5 metros de altura é tarefa impiedosa até mesmo para os turistas. Imaginar que por ali passou até mesmo Alija Izetbegovic, o então presidente da Bósnia (a cadeira de rodas utilizada pelo político faz parte do acervo do museu). Não só ele, como muitos outros bósnios fizeram esse percurso – esses, claro, pagando um valor graúdo para o mercado-negro, regido por parte da máfia dos Bosniaks que controlavam o túnel.O percurso dos 800 metros poderia ser feito em oito penosas horas.

Cerco de Sarajevo
Na parte externa do museu, é possível encontrar um exemplo do que foram as rosas de Sarajevo. Durante o cerco, era comum cruzar com poças de sangue nas ruas. Com a intenção de eternizar as vítimas, a população misturava uma resina ao sangue, o que permitia que aquela “cicatriz”ficasse no asfalto pra sempre. Sarajevo já está de pé novamente e muitas rosas foram apagadas das ruas, mas no Sniper Alley é possível encontrar alguns exemplares, em lugares extremamente mundanos, como portas de padaria ou bancas de revista.

A improvisada e lucrativa fábrica de cigarros de Sarajevo

“Durante o cerco, até quem não fumava passou a fumar”, disse um comerciante de Bascarsija, enquanto acendia um cigarro. Os alertas de “FUMAR MATA” contidos no verso dos maços passam a ter uma veia de humor-negro, se considerarmos um cenário como o do cerco de Sarajevo. Aliás, o notório humor-negro dos Bósnios deixa qualquer inglês no chinelo.

Durante a guerra, praticamente todas as indústrias de Sarajevo entraram em colapso. A única que ainda, ironicamente, funcionava a plenos pulmões era a indústria do tabaco. Cigarros passaram a ser uma iguaria finíssima no mercado-negro, com o preço do maço chegando a $10 – uma quantia exorbitante e mais que suficiente para comprar bons quilos de farinha e abastecer uma família inteira.

Cerco de Sarajevo
O cigarro “sem marca”que circulava no mercado-negro de Sarajevo. A iguaria poderia custar até $10.

A fábrica nacional de cigarros de Sarajevo produzia o Marlboro sob licença da Philip Morris. Quando a guerra eclodiu e a fábrica passou a não produzir os cigarros com o mesmo padrão imposto pela gigante norte-americana (faltavam filtros, papel, cola…), a criatividade deu as caras: um cigarro sem marca e sem nome era a sensação do mercado-negro.  A embalagem? Folhas de jornal ou os reminiscentes maços de Marlboro estocados, que foram sagazmente virados ao contrário. Locais diziam que o único momento em que as mãos paravam de tremer era quando paravam para fumar um cigarro. O tabaquear era tão cravado no cotidiano daqueles sobreviventes de Sarajevo que no museu do túnel tem uma seção inteira falando sobre o assunto. Sabe como é…fumar pode até matar, mas também alimenta.

 

 

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